Fé e Sexo: Por que é tão difícil falar de sexo na igreja?

Começamos na igreja um interessante estudo sobre a fé e sexo segundo a visão bíblica. A ideia central do assunto é discutir como o cristão deve lidar com sua própria sexualidade, o significado do sexo, como deve encara-lo e as muitas dificuldades da castidade em uma sociedade onde os relacionamentos são banalizados e consumíveis. Também joga luz sobre o porquê de a igreja parecer não estar preparada hoje para lidar com estes assuntos de forma eficaz.

A igreja cristã de hoje, em suas várias denominações e formas, ainda trata a questão do sexo de forma bastante ineficiente, tímida e superficial fazendo de um assunto tão recorrente e necessário um tabu que não pode ser discutido de forma aberta e rasgada. E mesmo quando se propõe a discutir o assunto, discute de forma bastante estática e enlatada que nunca chega a dialogar diretamente com as dificuldades reais dos jovens solteiros e em namoro. Discorre-se sobre santidade no namoro, sobre o significado do sexo diante de Deus, sobre vida com Deus, sobre a importância do sexo apenas dentro do casamento e todos os outros discursos enlatados, ingênuos e imprestáveis, que falam, falam, falam, mas não dizem nada. Não tocam nas feridas, não se aproximam da realidade dos relacionamentos, não instruem de forma direta, prática e realista e, por fim, não dialogam com ninguém.

Mas como chegamos a isto? Por que a igreja não consegue tratar de forma direta o assunto sobre o sexo? Podemos levantar vários pontos históricos e culturais que influenciaram o pensamento da igreja e das pessoas no decorrer dos anos. Em vez disso, é mais proveitoso, e menos chato, olharmos para dentro de nós mesmos e percebermos que nosso comportamento hoje, além da influência histórica e cultural, tem uma raiz ainda mais forte: a intolerância que vem da vaidade, da vaidade que vem do ego.

Imagine um jovem com nítido temor do Senhor. Obreiro comprometido com a obra do Senhor Deus e com a pregação do evangelho da salvação de nosso Senhor Jesus. Em um dia qualquer, este jovem resolve corajosamente chegar em seu pequeno grupo, um grupo de pessoas da igreja que se reúne semanalmente para orar e estudar a Palavra de Deus, e confessar uma dificuldade em seu relacionamento com sua namorada, que também é crente e temente a Deus. Ele não consegue parar de transar com ela. Lá ele diz que eles já tentaram de tudo, sabem que não devem, que é errado, se arrependem de praticar o ato sexual, mas invariavelmente acabam fazendo de novo quando tem a oportunidade.

Num primeiro momento, os membros do grupo ficam chocados e num segundo momento decidem agir como Jesus agiria: com compaixão. Eles leem a Palavra de Deus para o jovem, dão conselhos, compartilham dificuldades, oram com ele e eles saem da reunião em paz. Na semana seguinte, o jovem compartilha a alegria de estar uma semana sem transar com sua namorada. Na outra semana, ele compartilha a tristeza de ter caído e transado com sua namorada outra vez. Na semana final do mês, outra vez ele compartilha a dificuldade de não conseguir parar. E isso se segue por mais seis meses. Ora transa, ora não transa.

Neste tempo, o pensamento do grupo passa a mudar com relação a este jovem.

“Como pode? Já tem seis meses que estamos falando sobre isso, orando, dando conselhos, lendo a Palavra de Deus, entra semana e sai semana e é a mesma coisa. Não consegue parar de transar com a namorada. Tem algo de errado. Esse rapaz não tem compromisso com Deus, não tem temor, não quer parar, não está nos levando a sério, não está levando o evangelho a sério. Não vamos perder mais tempo com quem não tem compromisso.”

Então, o grupo se reúne, desta vez duramente critica a postura do jovem e lhe dá um ultimato: ou o namoro ou Cristo. O jovem se aborrece profundamente com a fala e nas reuniões seguintes deixa de abordar o assunto, e os membros do grupo também deixam de perguntar. A questão se encerra no esquecimento e no fingimento de que tudo está bem.

É de se admirar como depressa deixamos a compaixão e passamos para o julgamento temerário em questão de instantes. De como damos prazo para alguém ser curado de um problema como se a cura viesse de nossas mãos. Neste exemplo, o grupo de jovens começou bem. Tratou o problema do relacionamento do rapaz seguindo a compaixão de Cristo e com tato, temor e amor lidou com a questão. Porém, logo deu lugar à frustração pelas sucessivas falhas do jovem e passou ligeiro para o julgamento cruel, sem amor e errado.

Esta é a intolerância que encerra o assunto sexo em um tabu indiscutível. A igreja não consegue, ou não quer, criar um ambiente seguro para que sejam discutidas e tratadas as dificuldades da castidade, da masturbação e da pornografia sem cair em julgamentos severos, cínicos e hipócritas. Dessa forma, cria-se uma comunidade que não quer se expor por medo do julgamento, não quer arriscar manchar a imagem imaculada da família cristã perfeita, do casamento de ouro, do relacionamento santo, do jovem cristão irrepreensível que não transa com a namorada, que não se masturba e que não consome pornografia em todas as suas formas. Falta-nos longanimidade.

E quando nos deparamos com o silêncio da morte dentro da igreja quando o assunto é sexo nos parece que estamos sós. Que ninguém luta contra as sucessivas e alternadas aflições disparadas por satanás e pelo mundo a fim de destruir nossa sexualidade. Parece que todos são imunes a hiper sexualização de nosso tempo. Parece que a comunidade cristã está blindada contra as constantes, imediatas e fortíssimas tentações sexuais que nos cercam dia e noite. Que fazem ruir famílias, que destroem casamentos, que terminam relacionamentos. Em verdade, estamos encerrados numa máscara de Cristo onde mais importante é mantermos a aparência de que somos realmente crentes irrepreensíveis, infalíveis e santos. Somos prisioneiros da vaidade da imagem de nosso ego e isso, muitas vezes, nos impede de confessar que precisamos de socorro.

E o que há de se fazer? Como romperemos a barreira do medo de julgamentos?

É certo que precisamos romper com esta falsa imagem de imunidade. Ninguém está imune as tentações sexuais. Não importa a estatura da sua fé, a qualidade do relacionamento com o Senhor Deus, a sua idade, sua cultura ou criação, nada disso importa, somos todos, cada um de uma forma específica, tentados na área sexual. Um quer desesperadamente transar com a namorada, outro quer desesperadamente transar com outra mulher sem ser sua própria esposa, a esposa quer transar com outros homens, outros querem dar vazão a fantasias e fetiches estranhos e diversos. Todos. Absolutamente todos estão quebrados. Quer seja com a mente, quer seja com o corpo, todos pecam e carecem da graça de nosso Senhor Jesus Cristo.

Precisamos reconhecer nossos pecados. Precisamos reconhecer nossas dificuldades nessa área. Precisamos verbalizar isso com o Senhor Jesus Cristo sem reservas, confessar abertamente de forma nua, crua e franca. Sem medo, porque, ao contrário da igreja, no Senhor receberemos sempre compaixão. O Senhor habita em um alto e sublime trono, é verdade, mas também habita com o contrito e quebrantado de espírito. Precisamos nos apegar a esta verdade. E não importa quantas vezes você transou fora do casamento, o quanto de pornografia que já consumiu ou o quão sujo e distante você acredita estar de Deus por causa dos pecados sexuais, o Senhor está às portas. Perto está o Senhor. É sempre tempo de se arrepender, de confessar, de voltar ao Senhor, Ele ouve, Ele sara, Ele responde, nosso Redentor vive e se levanta em nosso favor. Creiamos todos nisso. Nosso Deus é um Deus de ira e justiça, mas também é sobremaneira abundante rico em graça e misericórdia.

Portanto, reconhecidos de que precisamos de ajuda, de que estamos quebrados, que pecamos e de que não somos imunes as tentações sexuais, confessando ao Senhor Jesus Cristo nossos pecados, desfaremos de nossa máscara de imunidade e teremos condições de compadecer do nosso próximo que também vacila nesta luta tão ferrenha contra a hiper sexualização de nossa cultura. Assim, nos desarmaremos do julgamento temerário que condena severamente aquele que vacilou na área sexual, que encerra o assunto sexo em um tabu indiscutível e que cria ironicamente um ambiente hostil dentro da igreja para o pecador.

Também não importa se caímos uma, duas, trezentas vezes num mesmo pecado, voltemos sempre ao Senhor Jesus contritos em sinceridade de espírito. A cura vem no tempo do Senhor, e não do homem. Resta-nos buscar a graça e perdão de Deus constantemente.

Este texto foi fechado pelo som sensacional de “Hallelujah” do pessoal do “Attalus”. Ouve ae. =D

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Dorly Junior

Dorly Junior

Dorly Junior é servo de Deus. E descobriu no Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, a genuína liberdade da escravidão do próprio ego. Curte Rock'n'roll e filme de terror. Atende no Facebook. Me acha lá! =D

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