A Política do Silêncio

A política do silêncio é um política que abafa, foge e evita conflitos dentro da comunidade cristã.

Dias desses houve uma discussão interessante no grupo do Whatsapp dos jovens da igreja. O assunto era sobre os limites dos tipos de temas que poderiam ser tratados dentro do grupo. A motivação era a questão da política brasileira. Falar de política hoje praticamente provoca uma guerra civil entre amigos e companheiros, porque muita gente não sabe lidar com diferenças ou respeitar a opinião do próximo. Infelizmente.

De um lado estavam os que defendiam a ideia de bloquear o assunto política, visando manter o grupo na monotonia de avisos esporádicos, para que as pessoas pudessem saber o que está acontecendo nas programações. A motivação era manter o foco do grupo. Do outro lado estavam os que defendiam a ideia do não bloqueio de assuntos específicos, mas que, como adultos, devêssemos lidar com as diferenças e aprender a respeitar a opinião do próximo. A motivação era manter, além do foco nos avisos esporádicos, um espaço para descontração e para discussões interessantes também esporádicas. A discussão terminou em bom ânimo. A decisão foi respeitar a posição da liderança dos jovens em manter a proibição do assunto política. É óbvio que eu estava no segundo grupo, porque a ideia de uma lista negra de assuntos, além de um insulto, é também um retrocesso infeliz, no entanto, como bons liderados, o melhor caminho foi o respeito.

Apesar da discussão ter sido civilizada, houve quem se escandalizasse e se movesse no sentindo de evitá-la. Observando isso, lembrei de uma postura que as igreja cristãs do mundo carregam consigo. Quando existe uma discussão mais acalorada em qualquer igreja ou em seus grupos, imediatamente brotam do chão os pacificadores recorrendo a versículos bíblicos a fim de abafar qualquer escândalo. Este comportamento é típico de lideranças de igrejas. Existe uma vaidade para manter uma imagem harmoniosa da igreja como se não houvessem escândalos ou conflitos, tais como corrupção nos dízimos, máfias nas grandes cúpulas, contendas entre irmãos, adultérios, racismo, preconceitos, abortos, disputas por poder, fofocas, mentiras e uma infinidade de outras coisas naturais de nossa depravação. Muitas lideranças, as vezes como covardes, preferem não deixar discussões polêmicas acontecerem e nem tratar esses tipos de problemas como convém por medo de conflito a fim de manter um cartão de visitas interessante para quem for novo membro e uma imagem imaculada para a comunidade. Preferem deixar “Deus tratar” ou apoiam-se no amor ao próximo para justificar sua covardia. Alguns sequer admitem que esse tipo de “escândalo” ocorre na igreja. O que se mantém é uma imagem falsa de que na igreja todos se amam e que não há contendas.

Esta não é outra senão a política do silêncio.

Vamos imaginar uma situação onde um membro da liderança de uma igreja desvia certo dinheiro de certo propósito para uso pessoal. Tendo descoberto a fraude, a liderança resolve tratar da seguinte forma: perdoar a infração e oferecer certo prazo e condição para a restituição do valor. Porém, um dos irmãos discorda da solução entendendo que além do perdão e da condição de restituição, o irmão infrator deva ser afastado da liderança por certo tempo. A maioria da liderança discorda e o irmão infrator permanece em seu cargo. Revoltado, o irmão que discordou deixa a comunidade. Pergunto, pois, quem errou? Todo mundo.

Imaginemos outra situação. No grupo de louvor formado por jovens é sabido que certo jovem é entregue a bebida, a prostituição e à farra desregrada, porém é peça interessante para o grupo, além de ser filho de uma família tradicional da igreja. Inconformado com esta situação, um membro da igreja se dirige a liderança para que trate o problema de uma forma amorosa e justa. Do pastor aos líderes há uma troca de responsabilidades onde cada um delega a tarefa para o outro e no passar do tempo ninguém resolve nada e o irmão fanfarrão continua domingo sim, domingo não, atuando no grupo de louvor. Já indignado com esta situação, o irmão queixante resolve confrontar o jovem a fim de chamá-lo ao juízo e ao arrependimento. Nenhum dos dois sabe lidar consigo mesmo na discussão e há escândalo, logo os pacificadores aproxima-se da contenda e abafam o acontecido. Tanto o jovem fanfarrão quanto o irmão queixante são levados a liderança e repreendidos. O irmão queixante se revolta e deixa a comunidade e o jovem fanfarrão volta ao grupo de louvor como se nada tivesse acontecido. Quem errou? Todo mundo.

Imaginemos ainda outra situação. Certa moça engravida sem ter marido e sem estar namorando e ainda tem dúvidas de quem pode ser o pai. Depois de percorrer em fofoca a comunidade inteira, tal situação chega aos ouvidos da liderança que resolve tomar uma atitude. A liderança chama a moça para uma conversa em amor onde é falado do amor de Cristo, do perdão e da bênção de ser mãe. A moça é repreendida e passa por uma pública disciplina (uma imbecilidade sem tamanho, diga-se de passagem) e resolve permanecer na comunhão. A moça se arrepende em verdade do acontecido, porém a comunidade é sobremodo preconceituosa. Salvo alguns poucos que não mudaram de atitude com relação a ela e sua família, o resto nutre um desprezo velado. Em um domingo qualquer, o pastor sem noção resolve trazer uma mensagem sobre os males da prostituição e do sexo fora do casamento. Sendo isso o estopim, somado a liderança sem repreender a comunidade por seu comportamento hipócrita, sem acompanhar a família da moça em seu tempo difícil, provocam na moça uma atitude de indignação e ela resolve sair da comunidade. Quem errou? Todo mundo.

O que todos esses exemplos tem em comum? A política do silêncio. No primeiro caso, por não querer causar mal estar ou por não querer chatear o membro infrator ou por qualquer outra vaidade, a liderança decidiu ignorar a justa petição de um de seus membros quando devia obviamente acatar e agir de forma enérgica. No segundo caso, devido a pressão de ter de lidar com um jovem de uma família tradicional e influente da igreja, a liderança simplesmente opta pela omissão na esperança de as coisas se resolverem sozinhas, porém as coisas só pioram gerando maior escândalo. No terceiro e último caso, diante de uma comunidade inteira de pessoas em grave erro comportamental, a liderança outra vez opta pelo conforto da omissão. Em vez de pregar um duro sermão sobre amor e respeito ao próximo, a liderança decide pregar sobre os perigos do sexo fora do casamento piorando ainda mais o conflito e o escândalo.

A política do silêncio é um política que abafa, foge e evita conflitos dentro da comunidade cristã. Que foge da resolução de conflitos de forma franca, direta, pontual, dura e forte (se assim for necessário), rompendo toda vaidade e todos os cuidados do mundo, doa em quem doer, sofra quem sofrer (se assim necessário for) tendo em vista a fiel repreensão segundo a palavra de Deus. Não importa se um irmão faz parte da liderança, se é peça fundamental de algum ministério, se é filho de uma família tradicional ou se a comunidade inteira de membros está repreensível, não importa status, posição ou influência, se vai causar mal estar ou impopularidade, nada disso é relevante quando se trata de confrontar um irmão em seu erro. Seja esse erro em atitude, postura ou opinião. Não podemos confundir repreensão em amor com conivência ou tratar em amor com tratar em politicagem interesseira.

Além das repreensões equivocadas, coniventes e sem energia, em um certo sentindo, esta política do silêncio tem colaborado para bizarrices diversas como cristãos simpáticos ao feminismo, a movimentos de extrema esquerda, à ideologia de gênero, ao casamento gay, ao aborto e uma variedade de outros movimentos anticristão. Por alguns motivos. Primeiro: não se abre espaço para estas discussões por serem polêmicas demais deixando seus membros nos seus preconceitos e ideias estranhas ao evangelho, porque teme-se a contenda. Segundo: quando se abre, poda-se o potencial da discussão evitando animosidade pelo confronto de ideias. Terceiro: não existe o incentivo para que as pessoas sejam francas e diretas sobre suas opiniões devido ao receio de escândalos ou de conflitos. Assim, temos tanto uma liderança que pisa em ovos sem sabedoria e autoridade para lidar com conflitos quanto uma igreja calada no profundo silêncio do respeito, mas também da ignorância e preconceito.

Ora, tanto as repreensões quanto as discussões severas entre irmãos são oportunidades de crescimento fundamentais para a caminhada cristã. Primeiro, porque mostram nossa verdadeira face depravada, mostra os preconceitos, mostra como nos falta entendimento em determinados assuntos ou como interpretamos mal algumas verdades bíblicas. Com isso convencemos o mundo de que não há perfeição na igreja e de que podemos errar. Segundo, porque temos a possibilidade de nos conhecer melhor no sentindo de reconhecer nossos excessos, nos arrepender em sinceridade, pedir perdão, receber perdão de Deus, nos perdoar, meditar sobre nossas falhas, sobre como poderíamos ter agido diferente. O exercício do erro acompanhado do temor e da sabedoria do Senhor Deus são um excelente caminho rumo a maturidade, rumo ao crescimento como cristão. No entanto, se adotamos a política de impedir erros e excessos, elegendo assuntos tabus, evitando mal estar, agindo politicamente mantendo o conflito primeiro no silêncio, segundo na harmonia falsa, visando uma paz ainda mais falsa, eliminamos a possibilidade de crescermos. Em vez de uma comunidade em um relacionamento sincero de opiniões sinceras, de mútua correção, de mútua discussão rumo a sabedoria, teremos uma comunidade onde ninguém conhece ninguém fundamentada em aparências e de harmonia hipócrita.

É certo que tarefa difícil é liderar uma igreja, moderar conflitos e repreender os irmãos de uma forma amorosa, porém franca e eficaz. Contudo, bom Mestre temos em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, e com Ele podemos aprender a lidar com nossos erros e com os erros de nossos próximos. Em Mateus, capítulo 21, versículos 12 e 13, Jesus entra no templo e, numa atitude talvez inesperada, derruba as barracas dos cambistas e os expulsa com autoridade e indignação. Tudo isso, porque haviam feito do templo do Senhor, casa de oração, em um covil de salteadores. Diante de uma situação de extremo erro, Jesus foi enérgico e não se importou com as influências de quem ali estava, era preciso agir e repreender aquele povo daquela forma. De igual maneira, não podemos deixar os cuidados do mundo suavizar sob o pretexto do amor ao próximo, a repreensão que vem da parte do Senhor pela Palavra de Deus.

Pouco antes, em Mateus, no capítulo 20, versículos de 20 a 28, a mãe dos apóstolos Tiago e João pede a Jesus que dê assento a eles ao lado do trono de Jesus no reino por vir. Ora, ao saberem do pedido, os outros dez discípulos se indignaram sobremaneira contra os dois e houve severa discussão sobre esta polêmica. No entanto, Jesus não ordenou que se calassem, nem proibiu que o assunto fosse tocado, mas reuniu a todos e os chamou ao diálogo. Ali Jesus repreendeu a todos eles em amor e lhes ensinou uma verdade preciosíssima sobre o reino de Deus, e não houve mais contenda entre eles sobre esse assunto. De igual maneira não podemos evitar as discussões polêmicas, não podemos deixar que os irmãos permaneçam em contendas silenciosas, em desprezo velado por qualquer divergência que exista, antes precisamos chamá-los ao diálogo e permitir que haja a discussão para que com sabedoria e amor a contenda cesse e haja harmonia e respeito sincero.

Por fim, em João, capítulo 6, versículos de 22 a 71, Jesus inicia sua palavra sobre o pão da vida. Para os que ali estavam, entre judeus, a multidão que seguia e os próprios discípulos, a ideia de Jesus ser o pão vivo que desceu do céu para que todo aquele que dele comer tenha a vida eterna era um sermão duro demais, forte demais, escandaloso demais. Em face disso, muitos discípulos abandonaram ao Senhor, porque não puderam admitir tamanha verdade. De igual maneira, como Jesus também não teve a intenção de agradar, de ser popular, conciliador ou politicamente correto, antes preferiu a impopularidade e o abandono, assim também devemos nos portar diante da tarefa de entregar uma mensagem forte de acordo com a Palavra de Deus. Melhor pregarmos o evangelho na sua integridade do que suavizar ou mesmo evitar um confronto direto com a comunidade. A Palavra de Deus é consolo e paz, mas também é confronto e repreensão.

Portanto, a política do silêncio é um mal a ser evitado. Diante de uma discussão polêmica, diante de um conflito, diante da necessidade de repreensão, ela sugere o abafamento pelo silêncio e uma repreensão muitas vezes política e covarde para que não haja escândalo. Fazendo isso ela gera ainda mais escândalo, seja criando um crente simpático a ideias estranhas ao evangelho, seja gerando um sentimento de impunidade na comunidade ou gerando contendas não resolvidas entre os irmãos. Todavia, temos bom Mestre em Jesus Cristo e Nele podemos buscar o equilíbrio, a sabedoria, a coragem, a determinação e a energia para resolvermos conflitos, moderar discussões polêmicas e repreender de forma sincera, enérgica, com autoridade e poder toda conduta, erro ou postura de nossos irmãos.

Que o Senhor Jesus nos ensine a sermos amorosos e também valentes para enfrentar os desafios da caminhada cristã.

Este texto foi fechado ao som super descolado de uma verdade descolada em “The Solid Rock”, cantado pelo pessoal do Grinstead.

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Dorly Junior

Dorly Junior

Dorly Junior é servo de Deus. E descobriu no Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, a genuína liberdade da escravidão do próprio ego. Curte Rock'n'roll e filme de terror. Atende no Facebook. Me acha lá! =D

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