O Horror da Predestinação

Acaso somos predeterminados?

A predestinação é um assunto bastante polêmico entre o meio cristão protestante, algumas pessoas gostam de conversar sobre, outras não, outras concordam e outras discordam. Outras não estão nem aí. No fim das contas, parece que cada pessoa tem sua própria versão da predestinação formada da maneira que lhes convém mais. A versão mais comum só ganha púlpitos se abordar o seu lado mais agradável, que trata dos eleitos para a salvação, e na pressa de abraçar e concordar com uma causa ou uma ideia, muitas pessoas tomam partido de algo sem, contudo, conhecer bem com o que estão concordando. Esta discussão não se trata de mais um enfadonho debate entre Calvinistas e Arminianos, mas, sim, de uma ilustração clara do que é a predestinação, sem rodeios, sem flores, sem conveniência, a doutrina como ela é e todo o profundo horror mascarado em si.

A predestinação não se trata de Deus elegendo pessoas para salvação após a queda de Adão. A eleição não veio porque perdemos nosso livre arbítrio ao morrer em nossos delitos e pecados. Não há livre arbítrio. A eleição vem de antes da fundação do mundo, antes de qualquer coisa existir, antes do pecado e da morte. A predestinação também não é Deus podendo prever o futuro e sabendo quem no fim o aceitaria para a vida e quem o negaria para a morte, não se trata disso, não há uma aceitação por parte do homem. A predestinação, enfim, dá conta de que antes da fundação do mundo Deus escolheu parte da humanidade para salvar e outra parte para condenar ao inferno. De forma que, se eleito, salvo, se salvo, no decorrer da vida, seremos forçados a ceder ao amor de Deus e nos convertermos a Cristo Jesus, nosso Deus, e, na eternidade, partilharemos de Sua bendita presença. Também diz que os predestinados a morte eterna jamais, ainda que queiram, se converterão a Cristo, estes estão debaixo da ira avassaladora de Deus desde antes da fundação da criação e permanecerão por lá eternamente.

Bem, dito isto imaginemos a seguinte ilustração: imagine que Jesus Cristo voltou, levou sua igreja, julgou o mundo e que agora sua noiva habita com Ele em alegria eterna no céu. Imagine que a outra parte da humanidade caiu nas terríveis sobras do inferno. Imagine ainda uma pessoa dentre as quais apodrecem no inferno. O tempo já não existe, porém imaginando que ainda possa ser contado, digamos que esta pessoa está no inferno a aproximadamente dois mil anos. Lá ela é assombrada dia e noite por horrores sem fim, lembrada de seu tempo na terra, consciente do céu, consciente de que Jesus Cristo é Senhor e que ela o negou por toda a vida. Digamos mais. Digamos que tenha conhecimento das doutrinas cristãs, mais especificamente da doutrina da predestinação. Em meio a seu aperto, esta pessoa passa a meditar diligintemente nos acontecimentos de sua vida e em algum ponto de sua eterna estadia no inferno chega à conclusão de que Deus, mesmo antes dela ter consciência de existência lá bem antes da criação, o Senhor Deus a impediu de amá-lo, a proibiu de conhecer sua verdade graciosa, de entender sua justiça e a incapacitou de reconhecer seus erros para frutos de arrependimento. Deus a formou para a desonra, a fez para a morte e não havia outra forma para ela se não cumprir tudo aquilo que Deus predeterminou em sua soberania. Esta pessoa chega à conclusão de que nunca houve justiça, nunca houve graça, nunca houve um tribunal e que nunca houve um juiz. Todo o enredo bíblico é apenas um teatro ilustrativo para a soberania esmagadora de Deus e que ela está no inferno cumprido uma determinação de Deus pautada por alguma decisão soberana de sua soberana vontade. Esta pessoa, dois mil anos no inferno, pensando dia atrás de dia sobre os fatos de sua vida pregressa, sobre os fatos antes da fundação do mundo e sobre as doutrinas protestantes chega à horrenda conclusão de que Deus a odiou primeiro e que ela não teve alternativas a não ser obedecer, sem chance alguma de redenção, a um decreto soberano divino sendo, portanto, inculpável pelo seu destino. Afinal, um boneco sem cérebro e sem vontade nada mais faz do que se ater ao seu propósito seja ele para a vida seja ele para morte. Não há espaço para responsabilidade humana na predestinação, apesar de haver quem, ingenuamente, tente argumentar de que há um nível de responsabilidade, uma espécie de livre agência. É certo que não há margem para isto na corrente doutrina da predestinação.

A verdade é que refúgio certo é o mistério para os defensores da predestinação. Ora, é óbvio que se Deus elege soberanamente pessoas para a vida e outras para a morte não há escolha ou responsabilidade para o homem. Ou o Senhor Deus elege e o homem não tem responsabilidade sobre seu destino ou o Senhor Deus não elege e o homem tem alguma parcela de responsabilidade sobre seu destino. No entanto, o que mais se ouve dos defensores da predestinação é que Deus elege e que o homem tem responsabilidade sim sobre seu destino. E a explicação para tal absurdo certamente não vem, porque é conveniente elevar a discussão a mistério de Deus e ficar por isso mesmo. Ora, tanto Calvinistas e Arminianos tem argumentos sólidos, convincentes e bem fundamentados na Palavra de Deus para sustentar suas teologias, porém, parece-me, que os Calvinistas têm dificuldade de verbalizar que o Senhor Deus da predestinação é um soberano ventríloquo e que o homem pouco menos que um boneco de barro de vontade predeterminada.

Não se trata de negar que Deus tem o papel fundamental na salvação do homem e nem de negar que a fé salvadora é dom de Deus, a árdua tarefa de admitir a predestinação como ela é, está em crer que a separação entre o homem e Deus não se deu por causa do pecado, mas, sim, pela vontade deliberada de Deus. Morremos por conta de nosso pecado, nosso caminho é continuamente mal, nunca saberíamos o que é o bem se o Senhor Deus não nos tivesse revelado e o único motivo de permanecermos maus é porque não conhecemos a Deus. Se conhecermos a Deus, seremos por Ele curados de nosso mal. Desta forma, se o Senhor Deus predeterminou que alguns permanecerão maus, porque Ele mesmo os impedirá de serem curados, e isto antes da fundação da criação, temos que o pecado é irrelevante, ele não passa de um simples recurso provido pelo Senhor Deus para afastar Dele mesmo as pessoas que Ele, em decisão soberana, resolveu não amar. Não foi o pecado que nos separou de Deus, mas o próprio Senhor Deus forjando a separação.

Agora, pensemos em outra questão: quando foi o nosso nascimento? Imediatamente pensaremos em nosso nascimento terreno. No entanto, temos ainda um primeiro nascimento. E qual seria este? Digamos que Deus possa sonhar. Todos nós, cada um de nós, todos que passaram e vão passar pela face desta terra, nasceram num mesmíssimo instante e num mesmíssimo lugar: nos sonhos de Deus, antes de toda fundação de qualquer coisa. Antes de tudo o que há, havia a Trindade Santíssima se relacionando entre si e projetando a criação. Lá mesmo Deus viu nossos rostos, nossos jeitos, trejeitos, nossas características, cada um dos nossos atos, lá o Senhor planejou a cruz e observou a trajetória de cada um de nossos passos e, ainda mais adiante, previu os tempos eternos, depois das primeiras coisas, que é o tempo, muito além de tudo, Deus experimentou o resultado último de sua criação (até onde podemos entender): um povo agraciado vivenciando e se relacionando com Ele em amor eterno.

Pensemos ainda no relacionamento entre pais e filhos como sendo uma ilustração para o relacionamento de Deus com o homem. Nós que somos horrivelmente corruptos e putrefatos detestamos o amor forçado e de nossos filhos queremos o amor por aquilo que somos, não pelo que temos e não por aquilo que podemos conceder. Convenceremos nossos filhos de amor, primeiro, porque eles têm a capacidade de serem convencidos e, segundo, porque força-los ao amor não iremos. Se nós que somos maus, podemos portar-nos assim, o que diremos do Senhor Deus?

Consideremos mais. John Piper em uma de suas pregações falando sobre o sentido último da feminilidade (Assista aqui) declarou que o sentido último de toda criação é a manifestação da glória da graça de Deus, ou seja, todo o universo foi feito tendo a cruz de Jesus Cristo, nosso Salvador, como força motivadora. A cruz de Cristo e tudo que ela representa, tudo o que ela diz sobre quem Deus é e o que Ele fez, faz e fará por um povo pecador, esta é, em verdade, a motivação para Deus, o Senhor, ter planejado, projetado, construído e mantido a criação. A graça de Deus é o motivo de toda a existência. Não só pela graça somos salvos, mas também por ela existimos. E a graça só se manifesta no abundar do pecado sendo, ele, não apenas um detalhe, mas a causa da resposta de Deus com superabundante graça. O Senhor não forçou o homem ao pecado para que se cumprisse uma predeterminação Dele para que a motivação Dele em construir o universo fosse satisfeita. É impossível remover a responsabilidade do homem em sua queda. Aliás, é impossível remover qualquer responsabilidade das mãos do homem, porque ele responderá pelos seus atos posto que o Senhor Deus o fez como o fez.

Se podemos considerar que o propósito último da criação é a manifestação da glória da graça de Deus, considerar que nascemos muito antes de qualquer coisa, antes do pecado, antes da morte, antes de toda acusação e da separação, e ainda podemos considerar as relações de amor sincero entre pais e filhos como um espelho provido por Deus para o seu próprio amor por nós, acaso seria forçoso demais concluir que a predestinação para a morte destoa fortemente do caráter do Senhor Jesus Cristo, Deus Salvador? Sem recorrer ao mistério como escape, diremos que sendo a predestinação como é, temos que o propósito último da criação não é a manifestação da glória da graça de Deus, mas, sim, a manifestação da glória da soberania tirana de Deus. Mais ainda. De que todo enredo bíblico, a figura de condenados, de um salvador e de um juiz não passam de um teatro orquestrado por Deus para mascarar sua soberania, posto que o Senhor nos privou de vontade, de pensamento livre e nos fez como bonecos sem decisão, sem escolha, sem vida e sem personalidade fadados a cumprir uma determinação de Deus prévia, antes de tudo, sendo, portanto, o motivo da condenação eterna uma escolha de Deus em ver um boneco de barro sofrendo amargamente uma tortura eterna no fogo do mais terrível abismo. É bem certo que não é assim. É bem verdade que nos altos céus não existe uma democracia, contudo também não há uma tirania.

Portanto, não podemos mascarar a doutrina da predestinação. Se a admitirmos, admitimos que, em última análise, o homem não tem vontade, nem livre agência e nem livre arbítrio, e nem responsabilidade sobre seus atos, posto que antes da existência seu caminho e seu destino foram predestinados por Deus para vida ou para morte. Admitimos também que o pecado não nos separou de Deus, mas Deus separou-nos Dele mesmo por uma decisão de sua soberania e a tragédia não está em nossa queda, mas em o Senhor Deus escolher amar a uns e odiar a outros. Podemos sugerir que a necessidade de, na predestinação, aniquilar a responsabilidade humana tanto na queda quanto na salvação se dá pelo nosso desejo de repassar a responsabilidade. Adão poderia ter argumentado com o Senhor Deus da seguinte maneira:

Ora, se fiz o que fiz, o fiz porque o Senhor mesmo predeterminou que assim se fizesse para que a manifestação da glória da graça de Deus fosse possível. E se fiz o que o Senhor mesmo predeterminou, por que me amolas? — Adão, vida louca, versão predestinação.

Deixemos o mistério para aquilo que é realmente um mistério. A predestinação e a responsabilidade humana não podem coexistir, porque assim que o Senhor Deus escolhe já não há decisões a se tomar. Nem em mistério e nem fora do mistério.

E por fim, o que diremos? Diremos que Deus não tem prazer na morte do ímpio e isto basta para crer que Deus não força ninguém ao inferno, nem antes e nem depois da separação pelo pecado.

Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? – Diz o Senhor Deus; não desejo, eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? Ezequiel 18:23

Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e criai em vós coração novo e espírito novo; pois, por que morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus. Portanto, convertei-vos e vivei. Ezequiel 18:31-32

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Dorly Junior

Dorly Junior

Dorly Junior é servo de Deus. E descobriu no Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, a genuína liberdade da escravidão do próprio ego. Curte Rock'n'roll e filme de terror. Atende no Facebook. Me acha lá! =D

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