Um julgamento e trevas

Há apenas dois caminhos: um que leve até a presença de Deus e outro que leva até aos portões do inferno.

Nota:

Fugindo um pouco do estilo de textos apresentados até aqui, desta vez trago um breve conto sobre o julgamento final.


E minha frustração começou assim:

Eu vivi a vida como se fosse uma só, como se eu precisasse viver bem cada instante, aproveitar bastante cada precioso momento da minha existência, porque, afinal, a vida é uma só. E eu vivi. Na infância brinquei como pude até cansar, sem preocupações e na ingenuidade dos meus dias. Na juventude, tomei muitas garotas, experimentei de um tudo, das boas festas com amigos, das viagens, até as ilicitudes de meus dias. Estudei, formei e trabalhei. Um bom emprego com um bom dinheiro realizei muitos dos sonhos que sonhei, não todos, não creio ser possível realizar todo sonho que se sonha durante a vida.

Eventualmente me casei. Tive filhos e filhas. E até netos. Roubei e fui roubado, enganei e fui enganado, briguei e brigaram comigo, traí e me traíram. Eu vivi bem. Corri atrás de muitas coisas, corri atrás de reconhecimento, corri atrás de amores, desejos, de uma melhor casa, de um melhor carro, de um melhor emprego, de uma melhor viagem, corri atrás de dinheiro e tudo aquilo de bom, e ruim, que ele traz consigo. Eu acreditava ser isso o fluxo da vida, o sentindo da existência: correr atrás da satisfação de meu ego. E, então, envelheci. E há uma coisa engraçada em ser avançado em dias, porque existe uma contínua sensação de que cada dia pode ser seu último dia de vida. É assim a vida toda e em qualquer idade, mas na terceira idade parece ser mais forte. Eu não tinha as forças dos meus primeiros dias, eu tomava remédios para quase tudo, fiz cirurgias, passei por apertos, quase morri várias vezes, tantas outras vezes fiquei bem mal. Eram tantas preocupações, comigo mesmo, com a minha esposa, meus filhos, meus netos e demais coisas da vida que a satisfação de meu ego, o norte de toda a minha vida, se tornou em apenas canseira e enfado. E no alto de meus 88 anos, finalmente a morte me alcançou.

Durante toda a minha vida achei que quando chegasse a hora de morrer, eu fecharia meus olhos uma última vez e entraria na profunda escuridão da inexistência, como num sono pesado sem sonhos e sem pesadelos. Minha história ficaria para trás e minha insignificância diante da vida teria passado para sempre. Eu não me importava com vida após a morte ou qualquer uma destas coisas, apesar de ter ouvido muito de muitas religiões, e discordar de praticamente tudo, nada daquilo poderia tirar meu ego do centro de minha vida. Eu estava deitado no meu leito, minha esposa já tinha ido primeiro que eu, estava rodeado por filhos, e filhas, e netos, suspirei e fechei os olhos.

Mas não havia escuridão de inexistência.

Eu ainda estava com os olhos fechados e ouvi uma voz chamando pelo meu nome. Eu abri meus olhos, e tudo estava muito branco e luz. E prossegui em ouvir a voz chamar meu nome, olhei a minha volta e havia um rapaz me observando. E a voz chamou de novo.

– Que foi? Respondi.

– Não sou eu quem chamo. Respondeu o rapaz.

– Quem é você?

– Sou quem sou.

– Quero dizer seu nome. Qual é o seu nome?

– Tenho muitos, mas prefiro mensageiro de Deus.

Lembrei do nome de Deus. Tornei a observar e eu não estava mais velho, nem cansado, estava moço e bem disposto. Mas eu estava preocupado pelo nome que disse o rapaz. Deus. Ora, não há Deus, há existência, há tempo e depois do tempo não há mais nada.

– Que lugar é este? O purgatório? Tornei a dirigir palavra ao rapaz.

– Não há purgatório.

Suspirei amargamente.

– Então, este é o lugar onde se prepara para reencarnar?

– Não há reencarnação.

– Este é o lugar onde os deuses se reúnem para decidir o destino dos homens?

– Não há deuses. Há um só Deus.

Fui tomado de pavor.

– E quem é este Deus? Qual é o seu nome?

O rapaz nem precisou dizer palavra, pois fui assaltado pela uma multidão de lembranças de minha consciência que dizia muitas palavras: Jesus Cristo! Deus conosco! Príncipe da paz! Cordeiro de Deus. Mesmo assim, o rapaz respondeu.

– Jesus Cristo, o Rei da Glória.

Pesou meus pensamentos. Palavras saiam com custo, sentei-me sem forças no chão e disse:

– E que lugar é este?

– Este é o lugar entre.

– Entre?

– Entre a vida eterna e a morte eterna.

– E que farei para herdar a vida?

– Neste momento?

– Sim!

– Nada fará. O que foi feito, está feito, pelo que o tempo já não há e tudo que se fez, foi feito. Agora levanta-te. Eis que vamos ver o Juiz.

– Que Juiz?

Novamente um turbilhão de memórias, e palavras, de pessoas que passaram por minha vida vieram aos meus pensamentos e diziam estridentemente: O Rei dos Reis e Senhor dos Senhores! Deus Pai! Pai nosso! Nosso Criador! O Senhor de toda a terra! Mesmo assim o rapaz respondeu.

– Nosso Pai, o Criador, Deus forte e poderoso, dono de tudo que há.

Veio o rapaz em minha direção para me levantar do chão, mas me desfiz de suas mãos e meu desespero tomou conta de mim.

– Eu não quero ver nenhum Juiz! Não é justo! Não serei julgado! Nem sabia de um Deus que dirá de um julgamento!

Dolorosamente, outro mutirão de vozes de lembranças da minha vida soou forte em minha consciência: Jesus Cristo morreu numa cruz, limpou-nos de nossos pecados, salvou-nos com amor de um duro julgamento! Jesus nos justificou e não há culpa para os que creem no seu nome! Arrependam-se e creiam que Jesus é Deus!

Então, cai novamente no chão exaurido, o rapaz me tomou nos braços e firmou meus pés.

– Irmão, todos seremos julgados pelo Reto Juiz e não há formas de fugir disso.

E eu chorei, solucei e desatei em amargo pranto. Tudo que vivi, tudo que ouvi, todos os apelos, todas as discussões, todas as palavras daquelas pessoas que falavam sobre o amor de Deus agora faziam todo o sentindo, ecoavam em minha mente insistentemente. Também todas as vezes que não quis ouvir, todas as vezes que os ofendi, todas as vezes que os persegui e os desprezei também estavam pesando sobre minha mente. E seria julgado pelos meus atos, cada um deles, todos eles, tudo que fiz e tudo que deixei de fazer, todos os meus pecados estariam diante de mim. E eu estaria sozinho.

– Eu estou com tanto, tanto medo! Eu não quero vê-lo! Deixa eu ir embora! Não me leve lá. Deixa eu ir embora… por favor! Eu suplico! Deixa eu ir embora…

– Irmão, não tenho autoridade para deixar-te ir ou levar-te a parte alguma. Verás o Juiz, pois Ele te chama.

Então, vi o Juiz de toda terra. Deus. O Criador. Pensei em debater com ele, em questioná-lo, em criticá-lo, em falar-lhe verdades de minha revolta, mas diante Dele, escapou-me a coragem, diante de tanta justiça e retidão, e também de amor, já não tinha mais palavras para dizer.

E Ele me disse:

– Filho, sabes meu veredito?

– Sei sim, Pai.

– Como sabes?

– Porque o Senhor o proclamou durante toda a existência da humanidade dizendo: e verá a minha salvação todo aquele que crer no nome de meu filho amado, Jesus Cristo, o Rei da Glória, Aquele que veio em amor para libertar os cativos do julgo do pecado, que pagou todo o preço, o que venceu a morte e o pecado. O homem ou mulher que não crer, já está julgado e caminha para a morte eterna.

– E que mais te direi?

– Dirás: apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me deste de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me.

– Pois bem o disseste. Apartai de mim, maldito, para o fogo eterno. Pois, desprezou meu amor e meu cuidado, infinitas vezes fui ver-te, infinitas vezes lhe falei ao coração, boas palavras te dei, mas para nenhuma delas acudiu. O tempo de arrependimento veio e já findou. Já não disse eu? Apartai de mim!

Desmoronou-se tudo e me vi em densa escuridão. Hediondos urros de dor ouço dia e noite, minha consciência lembra-me cada instante da vida em que não cri no nome de Cristo, e escrevo estas palavras vez atrás de vez na esperança de que alguém a veja e não venha para cá. Mas eu sei. Acabou. Estas palavras não vão a lugar algum.

Repetição.

Em breve tornarei a escrevê-las na falsa esperança de mudar alguma coisa. Nada muda. Não há fim de existência, toda a vida é vaidade, correr atrás do vento, há Deus, Jesus é Deus, e Ele é bom e justo. Vivi como quis, não ouvi o que tinha de ouvir e agora estou onde não quero sofrendo o que não suporto.

Nunca pensei que sentiria tanta falta de Deus, pois Ele verdadeiramente estava presente em cada um e em todos os dias de minha vida.

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu julgo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para vossa alma. Porque o meu julgo é suave, e o meu fardo é leve. Mateus 11: 28 – 30

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Dorly Junior

Dorly Junior

Dorly Junior é servo de Deus. E descobriu no Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, a genuína liberdade da escravidão do próprio ego. Curte Rock'n'roll e filme de terror. Atende no Facebook. Me acha lá! =D

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